Controle de Pragas em Ambiente Hospitalar

Controle de pragas em ambiente hospitalar – Ronaldo Facury Brasil

A relação dos homens com as pragas urbanas remonta aos primórdios da humanidade. E a luta por controlá-las é um desafio igualmente antigo. Tão antigo quanto a convivência dessas pragas em instituições hospitalares e a sua tentativa de lançar mãos de métodos empíricos conhecidos a cada época para tentar controlá-las.

Devido às condições de higiene e saneamento em geral, até meados do século XX, problemas com pulgas, piolhos e percevejos de leitos eram freqüentes em hospitais. Somente após o término da segunda grande guerra mundial, como conseqüência da descoberta das propriedades inseticidas do DDT, a abordagem química do controle de pragas, tanto na agricultura como nas áreas urbanas, cresceu e se fixou fortemente nos hospitais brasileiros. Este fato, aliado à melhoria das condições higiênico-sanitárias e às mudanças decorrentes da intensificação do processo de urbanização, provocou uma mudança no perfil das pragas nos hospitais. Para exemplificar, pulgas, piolhos e percevejos são raros hoje em dia, mas formigas, por exemplo, que eram pouco freqüentes, tornaram-se comuns.

Nos últimos anos, devido à ampliação do conhecimento sobre os riscos toxicológicos e impactos ambientais dos inseticidas e raticidas, busca-se abordagens mais seguras e menos impactantes. E apesar disso, a ocorrência de pragas em hospitais ainda é um fato mundialmente comum, mas são poucos os estudos que apresentam estatísticas de ocorrência de pragas em ambientes de saúde.

Quem esclarece esta e demais questões sobre o controle de pragas em ambiente hospitalar é o biólogo Ronaldo Facury Brasil, pós-graduado em Gestão em Saúde, Segurança e Meio Ambiente e Hotelaria Hospitalar, diretor técnico operacional da PPV Controle de Pragas.

Quais são os principais fatores para o aparecimento de pragas em uma instituição de saúde?

Para que possamos falar sobre esses fatores é importante que se fale sob o conceito de praga. Por definição, praga “é qualquer organismo vivo que cause algum tipo de transtorno ou prejuízo ao homem, quando ambos compartilham o mesmo espaço”. Portanto, pode-se dizer que a barata que está dentro das tubulações nas ruas, por exemplo, não pode ser considerada praga, pois não está compartilhando o mesmo ambiente conosco, e diríamos ainda, que estes indivíduos têm um papel muito importante dentro do ecossistema urbano.

Outra importante informação que deve ser considerada é a diferença de conceito entre ocorrência episódica e infestação de pragas. Uma ocorrência episódica e isolada é aquela em que a praga encontra facilidade de acesso, entra no ambiente, mas não encontra condições para o seu estabelecimento e desenvolvimento e acaba morrendo ou apenas indo embora. Já uma infestação, a praga tem acesso às áreas e ali encontram condições essenciais para se desenvolver. Estas condições são o que chamamos de triângulo da vida ou o tripé dos A’s, que são os seguintes elementos: Água, Abrigo e Alimento. Elementos importantes para sobrevivência de qualquer organismo vivo.

E quais são as pragas mais comuns em hospitais?

Estudo efetuado na Polônia no período de 1990 a 1995 mostrou que a barata Blatella germanica era o inseto mais freqüente nos Hospitais estudados ocorrendo em 71% dos mesmos. Outra barata, a Blatta Orientalis, e uma espécie de formiga Monomorium pharaonis ocorreram em 40% e 17% da amostra respectivamente. Um estudo semelhante e comparativo conduzido entre 2003 e 2004 mostrou a presença das mesmas espécies, porém com nível de infestação menor do que o observado anteriormente.

Pesquisa efetuada com 192 hospitais no estado de Nova Yorque, em 1995, mostrou que 98% deles aplicavam inseticidas em suas instalações. Pesquisa efetuada em 22 Hospitais americanos em 2003 mostrou que todos eles aplicavam inseticidas em suas instalações apesar de 73% deles reportarem o uso de uma abordagem do Controle Integrado de Pragas. Apesar de não ser perguntado em nenhum dos questionários se os Hospitais tinham ocorrência de pragas, pode-se concluir pela incidência de tratamentos com inseticidas que estes problemas existiam na quase totalidade.

Aqui no Brasil, nós (MILANO e BRASIL) desenvolvemosdois estudos envolvendo a participação relativa de cada grupo de pragas. O primeiro efetuado em 12 Hospitais da cidade de São Paulo mostrou que, baratas, formigas e moscas ocorriam em todos os Hospitais e eram os grupos mais freqüentes de pragas, representando mais de 70% do total das pragas observadas. O segundo estudo foi desenvolvido sobre uma amostra de 24 Hospitais localizados na grande São Paulo: doze Hospitais foram avaliados no período entre 1994 e 1997 e outros doze no período entre 1998 e 2001. Os resultados obtidos são mostrados abaixo.

Freqüência relativa das ocorrências de diferentes grupos de pragas em duas amostras de hospitais nos períodos de 1994 a 1997 e de 1998 a 2001.

Fonte: (MILANO & BRASIL).

No período de 1998 a 2001 observou-se uma redução de cerca de 20% no total de ocorrências em relação ao período anterior. Nos dois períodos, formigas, baratas, moscas e mosquitos representaram mais de 80% das ocorrências, porém observaram-se alterações importantes na distribuição relativa destas pragas. De maneira geral observou-se um aumento na freqüência das espécies invasivas (insetos voadores originados fora do ambiente hospitalar) em relação às eventualmente instaladas dentro dos Hospitais.

Todos os Hospitais apresentaram ocorrências com formigas, sendo que Tapinoma melanocephallumParatrechina longicornis foram as espécies mais freqüentes. Estes dados coincidem com levantamentos realizados em oito Hospitais do Estado de São Paulo. Este estudo último mostrou que:

a. todos os Hospitais visitados apresentaram infestação de formigas. Sempre ocorreram várias espécies, com a predominância de uma delas. O índice de infestação variou de 16 a 61% dos pontos amostrados, atingindo 73% quando ocorreu a explosão populacional de uma das espécies;

b. em um dos Hospitais localizado na região Sudeste, 16,5% das formigas coletadas apresentaram bactérias patogênicas;

c. os berçários e as UTIs foram as alas com maiores índices de infestação;

d. as formigas mais comuns foram duas espécies introduzidas, destacando Tapinoma melanocephalume Paratrechina longicornis;

Neste estudo apenas dois Hospitais não apresentaram ocorrências com baratas sendo que a espécie Blatella germanica que foi mais freqüente na primeira amostragem, tornou-se menos freqüente que a espécie Periplaneta americana na segunda análise.

Todos os Hospitais apresentaram ocorrências de moscas sendo Musca domestica a espécie mais freqüente, porém diversas ocorrências de outras espécies, algumas, inclusive pouco comuns, foram observadas. Chama a atenção o aumento de 9,9% para 22,1% na participação relativa das moscas entre a primeira e segunda amostragem. Mosquitos representaram 9,4% das ocorrências na primeira amostragem e 12,5% na segunda. Na primeira amostragem a quase totalidade das ocorrências era do mosquito Culex quinquefasciatus. Na segunda amostragem além desta espécie surgiram ocorrências comAedes aegypti.

Em quais áreas é mais comum o aparecimento de pragas

Pode-se dizer que a ocorrência com baratas, ratos e formigas está relacionada às áreas onde são manipulados ou estocados os gêneros alimentícios ou então, onde existam depósitos de resíduos gerados pelas áreas de produção de alimentos. As ocorrências com formigas que normalmente são observadas em quartos de pacientes, por exemplo, acontecem por muitas vezes por causa da oferta de soro glicosado e outros resíduos que caem no ambiente ou que são deixados nos cestos de lixo.

É muito comum hoje em dia também, os acompanhantes dos pacientes levarem alimento para dentro das unidades de internação, aumentando assim os resíduos e os riscos das ocorrências. Outra prática principalmente nas maternidades, quando das visitas, é a entrega de vasos de flores para os pacientes. Vários são os relatos de colônias de formigas instaladas nestes vasos.

Portanto, não é verdadeira a afirmação de que exista uma correlação real entre a espécie praga e o ambiente específico. As pragas por serem oportunistas e pela necessidade biológica de perpetuação de sua espécie e sobrevivência, procuram as condições ambientais oferecidas que favoreçam sua instalação e desenvolvimento.

Qual é a maneira mais correta e eficaz para controlá-las?

Atualmente, a abordagem mais moderna de controle de pragas em instituições de saúde é o controle integrado de pragas. Esta abordagem fundamenta-se na gestão das ocorrências com pragas e no uso delas como indicadores ambientais. A cada ocorrência devemos buscar entender as relações ecológicas entre as características biológicas da praga e os fatores ambientais oferecidos no local do evento. Se conseguirmos identificar os fatores determinantes e os corrigirmos o local tornar-se-á ambientalmente resistente e aquela praga não voltará a aparecer enquanto as condições desfavoráveis a ela forem mantidas.

É preciso ressaltar que o controle integrado visa, fundamentalmente, minimizar a utilização de produtos químicos no controle. No estágio atual esta abordagem, quando adequadamente adotada, permite a redução, em média, de 85% no volume de inseticidas aplicados e mais de 95% no volume de raticidas quando comparados com a abordagem tradicional de aplicações periódicas. Este nível de redução é especialmente importante em instituições de saúde, pois é fato cientificamente conhecido que crianças e idosos são mais sensíveis aos efeitos diversos dos produtos químicos. Crianças e idosos são a maioria do público destas instituições.

Nas situações onde for necessário o uso de produtos químicos a seleção deve ser criteriosa. Existem centenas de marcas de produtos disponíveis no mercado brasileiro. Na composição destes produtos entre trinta e quarenta diferentes tipos de ingredientes ativos são utilizados. Dentre estes ingredientes existem produtos reconhecidamente de toxicidade aguda alta, suspeitos de carcinogenicidade, suspeitos de afetar negativamente a reprodução e o desenvolvimento e de interferir no funcionamento do sistema endócrino.

Como devem ser empregados os produtos para o cuidado com pragas em locais como Centro Cirúrgico, Nutrição, UTI?

Procedimentos de intervenção química são atualmente utilizados com freqüência pelas empresas de prestação de serviços de controle de pragas em vários departamentos e setores críticos dos estabelecimentos de saúde, inclusive nos setores como centro cirúrgico, material de esterilização, centro de nutrição, UTI e até berçários. É ainda muito forte a cultura de que o produto pode evitar a ocorrência ou a entrada das pragas. Na realidade os produtos aplicados funcionam como um “analgésico”. Eles, se bem utilizados, podem resolver a “dor”, mas não a “causa” ou a “origem” dela. Deve-se lembrar ainda, que normalmente após qualquer intervenção química, faz-se uma limpeza terminal das áreas tratadas, consequentemente, tudo ou quase tudo que foi aplicado, é removido pela limpeza e o todo o trabalho vai “literalmente para o ralo”.

Acreditamos que é muito mais inteligente evitar a entrada e reduzir os acessos para as pragas e também, trabalhar no sentido de conscientização dos usuários dos setores para que eles, durante suas atividades e atribuições diárias não criem condições favoráveis para que as pragas se estabeleçam. No entanto, a aplicação de produtos, em certos casos ainda é uma solução e se ela for comprovadamente necessária, deve-se optar pela aplicação de produtos na forma de iscas, pois este processo além de utilizar quantidades normalmente menores de produtos, é mais segura e normalmente localizada.

Com qual periodicidade deve haver este controle?

Cada Hospital, estabelecimento de saúde ou qualquer ambiente que receberá um controle, deve ser analisado como um organismo diferente. Ele apresenta realidades e particularidades que devem ser consideradas quando da elaboração de um programa de controle de pragas. Inicialmente o estabelecimento deve passar por uma avaliação técnica profunda, como um médico que faz uma primeira consulta em um paciente. É necessário para que se faça o diagnóstico que se conheça muito bem o seu paciente. Com controle de pragas é situação é bastante semelhante, para que se possa traçar um planejamento, é necessário uma boa avaliação das áreas que deverão ser controladas. Deve-se também ter o cuidado de levantar informações do entorno do estabelecimento e do histórico de ocorrências.

Quanto à periodicidade, o que se deve ter, não é freqüência ideal pré-estabelecida de aplicação e controle, mas sim, a freqüência com a qual o profissional de controle de pragas deverá monitorar e avaliar as ocorrências, para daí então traçar estratégias específicas de controle para cada área. A freqüência de visitas, assim como o trabalho de aplicação deve ser dinâmico e cabe ao profissional técnico responsável pelo controle de pragas determinar o que é melhor para aquele cliente ou estabelecimento.

Por experiência, a periodicidade de visitas deve estar diretamente relacionada ao porte (número de leitos) e a localização do Hospital. Normalmente estas visitas podem ser semanais, quinzenais e em alguns casos mensais. Admitir que o Hospital necessite de visitas diárias para controle, é acreditar que temos ocorrências com pragas todos os dias. Portanto o planejamento deve ser revisto.

A inspeção para o controle de pragas deve ser feita por qual departamento da instituição?

As inspeções para controle de pragas devem ser efetuadas por profissionais habilitados ou devidamente treinados com olhos não somente para a observação das ocorrências das pragas, mas também com o objetivo de buscar as evidências que possam justificar a sua presença nos ambientes.

Este suporte de treinamento pode e deve ser dado por profissionais que prestam serviços para os estabelecimentos. Outra forma de obtenção de informações das ocorrências seria a criação de um formulário ou uma central onde fossem anotados os locais e as ocorrências, para que as ações pudessem ser adotadas.

Num trabalho recentemente desenvolvido por nós, foram pesquisados 61 Hospitais na grande São Paulo e 35% deles responderam que o departamento de Hotelaria Hospitalar está à frente dos trabalhos de controle de pragas. Foram também citados setores como: segurança do trabalho, SND, higienização/governança, manutenção e CCIH. A nossa experiência tem mostrado que todos os serviços oferecidos pelo Hospital, que não os assistenciais, estão sob responsabilidade do Hoteleiro Hospitalar e o controle de pragas é um deles.

Quais são as medidas preventivas para o seu controle?

Ao contrário do que muitas pessoas acreditam, ser praga não é uma característica inerente a determinadas espécies biológicas. Tecnicamente o conceito de praga é “qualquer organismo vivo que cause algum transtorno ou prejuízo ao homem quando ambos compartilham o mesmo ambiente”. Conforme se pode ver, este é um conceito situacional que envolve três aspectos: uma espécie biológica, um determinado ambiente e um juízo de valor por parte do homem.

Homem, ambiente e organismo vivo, contribuem cada um à sua maneira para a situação de ocorrência de pragas. Entender claramente a forma como cada um destes elementos participa do processo e como eles interagem entre si é a base para a tomada de decisão sobre as ações que, uma vez implementadas, levarão ao controle e prevenção da ocorrência.

A contribuição do organismo à situação de ocorrência de praga é bastante restrita e envolve apenas o seu repertório genético e comportamental. Em outras palavras o organismo está, sempre, simplesmente cumprindo o papel ecológico para o qual foi selecionado ao longo da história evolutiva da sua espécie. Por sua vez o homem participa do conceito num primeiro momento com a avaliação do transtorno ou prejuízo causado pelo organismo. Aqui é interessante notar que existe uma diferença fundamental entre os conceitos de praga agrícola e urbana. No caso da praga agrícola o prejuízo é objetivo: é possível mensurar a perda nos resultados da safra. No caso da praga urbana, a avaliação do transtorno é às vezes fortemente subjetiva e influenciada por aspectos culturais e psicológicos. Em algumas regiões da Índia ratos são adorados como encarnação de deuses. Evidentemente para os que acreditam nisto os ratos não são vistos como pragas. Por outro lado a reação humana ao contacto visual com alguns insetos e aranhas vai desde a absoluta indiferença até a verdadeira fobia com resultados completamente diferentes em termos do transtorno causado pela praga.

Uma outra participação importante do homem no conceito de praga diz respeito ao fato de que muitos hábitos e comportamentos corriqueiros podem ser fortemente determinantes nas ocorrências de pragas. Exemplo disto é o descontrolado aumento das populações de pombos urbanos em áreas onde o hábito de alimentá-los é corriqueiro. O comportamento humano no que diz respeito ao saneamento e higienização ambiental são, também, elementos, cuja importância na facilitação ou dificultação das ocorrências com pragas, são reconhecidas há muito tempo. Muitos destes hábitos e comportamentos são frutos do nível de informação (ou desinformação) e da cultura individual das pessoas. Nas organizações de maneira geral e nos hospitais em particular as políticas, normas, procedimentos, manuais operacionais, boas práticas etc. têm por objetivo sistematizar determinados comportamentos esperados dentro da organização. Estes documentos informam. Porém, muitas vezes, para mudar hábitos e comportamentos é preciso envolver a todos. Neste ponto treinamentos e campanhas de conscientização, tecnicamente bem conduzidos, têm papel fundamental.    Por outro lado, as características ambientais são o grande determinante em muitas ocorrências com pragas em hospitais. Dentre estas características as condições do entorno do hospital são determinantes dos níveis e tipos de pressão de invasão a que o mesmo estará sujeito especialmente no caso de insetos voadores e eventualmente roedores. Além disto, a estrutura física dos diversos ambientes e equipamentos existentes em um hospital são de um grau de complexidade impar quando comparados com a maioria das outras estruturas urbanas. Esta complexidade cria, dentro destes ambientes, vários locais de abrigo e, eventualmente, pontos de entrada ou de oferta de água e/ou alimento ao longo desta estrutura física para que populações de pragas possam se instalar e manter dentro do hospital.

Edificações e equipamentos sofrem a inexorável ação do uso e do tempo e vão se deteriorando. Com isto a manutenção, que inicialmente era muito mais preventiva, vai se tornando cada vez mais apenas curativa. Rapidamente chega-se ao ponto em que há necessidade de se priorizar entre as próprias ações curativas. Com isto, pequenas falhas pontuais de manutenção passam a ocorrer e é nestas pequenas falhas que o ambiente vai se tornando favorável às pragas. O pequeno buraco formado pelo rejunte de azulejo que soltou e não foi reposto ou uma pequena trinca que surgiu num canto escondido de uma parede podem servir de abrigos para grupos de baratas ou colônias de formigas. O pequeno vazamento que só deixa um pouco úmido o armário embaixo de uma pia pode criar as condições necessárias para alguns tipos de moscas e baratas. O espaço deixado na parede ao redor de um novo cano que foi instalado pode servir de porta de entrada para uma invasão por roedores.

A importância da limpeza do ambiente no controle de pragas é do conhecimento de todos. De maneira geral nossos hospitais mantêm programas e procedimentos de limpeza bastante satisfatórios. Ocorre que frações muito pequenas de resíduos podem servir de atrativo e/ou alimento para muitas das espécies pragas em hospitais. Assim, um único farelinho de biscoito ou uma gota de soro glicosado, que não comprometem a limpeza, podem servir de atrativo e alimento para formigas e baratas, por exemplo. Somente a avaliação da freqüência com que este tipo de ocorrência acontece permite determinar se há necessidade, ou não, de alguma alteração no procedimento de limpeza. Outro aspecto ambiental importante diz respeito aos resíduos gerados pela atividade hospitalar. Sabe-se que boa parte do lixo urbano é de natureza orgânica e está, portanto, sujeita ao processo de decomposição. Este é o mecanismo ambiental que garante que os nutrientes acumulados pelos organismos ao longo de sua vida sejam devolvidos ao ambiente após a sua morte. Com isto estes nutrientes tornam-se novamente disponíveis aos novos organismos vivos. Muitas das espécies envolvidas em situações de ocorrência de pragas cumprem este papel ecológico: são decompositoras.

Assim qualquer resíduo de natureza orgânica gerado no hospital pode servir de atrativo alimentar e de estímulo para que diferentes organismos cumpram a função ambiental para que foram programados ao longo do processo evolutivo. Por esta razão os cuidados no processamento dos resíduos no hospital podem criar situações ambientais que contribuem ou dificultam determinadas ocorrências com pragas e, portanto devem ser considerados no respectivo Programa de Gestão.

Como está o controle de pragas atualmente junto ao Ministério da Saúde, ANVISA, ou seja, quais legislações asseguram este controle e a prevenção?

A Resolução – RDC  nº 18, de 29 de fevereiro de 2000 dispõe sobre Normas Gerais para funcionamento de Empresas Especializadas na prestação de serviços de controle de vetores e pragas urbanas. As exigências legais dizem respeito às instalações das empresas, ao transporte dos produtos, à destinação das embalagens e às rotinas de trabalho, além da obrigatoriedade de um responsável técnico. Assim, as Empresas Especializadas somente podem funcionar, depois de devidamente licenciadas junto à Autoridade Sanitária ou Ambiental Competente em nível estadual ou municipal.

Recentemente, a Consulta Pública nº 76, de 23 de dezembro de 2008 colocou em discussão a atualização deste regulamento. Em seu item 4.2 o novo regulamento em diz explicitamente que “a prestação de serviço de controle de vetores e pragas urbanas somente pode ser exercida por empresa especializada, sendo obrigatória a contratação e/ou licitação específica e independente de outros serviços de quaisquer naturezas”. Por controle de vetores e pragas urbanas a nova norma entende o “conjunto de ações implementadas, visando impedir que vetores e pragas urbanas se instalem ou reproduzam no ambiente. Incluem-se neste conceito os termos “Controle integrado de pragas urbanas” e/ou “Manejo Integrado de pragas urbanas” e denominações semelhantes”.

Disto conclui-se que toda instituição de saúde deve manter contrato de serviço de controle de pragas com empresa especializada. Deve, também, manter documentação que comprove as atividades desenvolvidas.

Outro aspecto importante diz respeito aos produtos utilizados. Qualquer inseticida ou raticida deve obrigatoriamente ter registro na ANVISA e este registro tem um período de validade. No site deste órgão é possível consultar o número de registro dos produtos legalizados. A prática de consultar periodicamente este site é importante, pois um levantamento recente com 156 marcas comerciais mostrou que 11% dos produtos ou não tinham registro ou estavam com registro vencido.

A cargo de qual departamento fica a Gestão de Controle de Pragas?

Num trabalho recentemente desenvolvido por nós, em 2008, foram pesquisados 61 hospitais localizados na grande São Paulo e uma das perguntas foi a qual departamento o controle de pragas estava ligado, e 35% deles responderam que o departamento de Hotelaria Hospitalar está à frente da gestão dos trabalhos de controle. Foram também citados setores como: segurança do trabalho, SND, higienização/governança, manutenção e CCIH. A nossa experiência tem mostrado que todos os serviços oferecidos pelo Hospital, que não os assistenciais, estão atualmente, sob a responsabilidade do Hoteleiro Hospitalar e o controle de pragas é um deles.

Em que ponto a Enfermagem pode contribuir para o controle de pragas dentro de hospitais, clínicas, laboratórios?

Dentro da estrutura destas Instituições, os profissionais de Enfermagem têm papel fundamental que vai além do suporte clínico. Por estarem continuamente deslocando-se pela instituição, estes profissionais são verdadeiros sentinelas. São estes profissionais que muitas vezes detectam problemas de manutenção, limpeza, rouparia, etc. e acionam as ações corretivas necessárias. São olhos que vêem múltiplos aspectos da instituição. No que diz respeito ao controle de pragas esta contribuição pode ser resumida basicamente em três aspectos:

  • atenção às ocorrências, registro e informação das mesmas;
  • atenção às mudanças ambientais que podem favorecer as ocorrências;
  • adoção de procedimentos que não criem situações favoráveis às pragas.

Além da falta de higiene, transmissão de microrganismos e comprometimento da imagem da instituição, essas pragas podem causar danos em equipamentos e na rede elétrica, por exemplo?

É fato que as pragas podem ocorrer principalmente em ambientes com falta de higiene, mas já nos deparamos com inúmeros casos de ocorrências de pragas em Centros Cirúrgicos, por exemplo, que a princípio, eram locais extremamente limpos e organizados. Quanto à transmissão de doenças devido à presença de pragas, também é notório que as pragas podem transmitir várias patologias, mas não podemos esquecer que o grande responsável pelo aumento e manutenção de níveis elevados de infecção hospitalar ainda são as pessoas. As pragas em muitos casos aparecem como as grandes vilãs desta história e isso nem sempre é verdade. Logicamente que sua presença, para grande maioria das pessoas, está sempre associada à falta de higiene e com isso pode prejudicar a imagem do estabelecimento de saúde, daí a importância de se ter um trabalho que busque minimizar as ocorrências ao longo do tempo. Deve-se buscar a redução da probabilidade de visualização de ocorrências pelos usuários e colaboradores.

A cidade de São Paulo tem registrado um aumento significativo das ocorrências com roedores, por exemplo. Em apenas seis anos, os registros de reclamações de ocorrência de roedores aumentaram em mais de 10 vezes, como mostram os dados coletados junto a um site da Prefeitura:

Distribuição das solicitações relativas a roedores resgistradas pelo Sistema de Apoio ao Cidadão (SAC – 156)

Por conseqüência, os casos de danos a cabos elétricos e cabines de distribuição de energia por causa do ataque dos roedores também têm aumentado. Vários são os casos de curto-circuito em cabines de força e também com equipamentos. Um bom processo de monitoramento das ocorrências e principalmente um trabalho de fechamento de todos os possíveis acessos são fundamentais para evitar as ocorrências.

Durante muito tempo o controle de pragas urbanas foi baseado exclusivamente na aplicação de defensivos químicos. Hoje, como está este cuidado quando falamos em serviços de saúde?

A abordagem do controle de pragas mudou bastante nos últimos anos especialmente em consequência da crescente preocupação pública com segurança e com o meio ambiente.

Na abordagem tradicional a expectativa de controle sempre foi, basicamente, função direta da aplicação de defensivos químicos. A idéia que sustentava esta abordagem é a seguinte: usando o inseticida correto, obtém-se o controle das pragas. Como consequência quantidades consideráveis de defensivos químicos foram aplicados no meio ambiente eliminando diversos organismos que não eram alvo do controle.

Ao mesmo tempo estas aplicações em massa pressionaram aos organismos alvo a desenvolver mecanismos biológicos de resistência a estes defensivos e também a se esconderem cada vez mais. Recentemente uma abordagem de Controle Integrado de Pragas começou a ser desenvolvida como uma alternativa, tecnicamente viável e ecologicamente correta para o controle de pragas em ambientes sensíveis. O Controle Integrado significa uma mudança conceitual básica no que diz respeito ao controle de pragas: defensivos químicos não são os únicos meios de controle, é possível integrar diferentes ferramentas para obter o controle.

Quais as principais mudanças que você sentiu no controle de pragas em hospitais?

Podemos falar sobre o sistema que nós desenvolvemos em nossa empresa para atender os Hospitais e os estabelecimentos de saúde. O Sistema PPV aplica todas as ferramentas utilizadas no Controle Integrado de Pragas, assim o controle é conseqüência de um conjunto de medidas que visam reduzir as oportunidades de invasão e instalação das pragas. O trabalho envolve o monitoramento contínuo das infestações, a criação de obstáculos ambientais e a intervenção cultural de modo a orientar os usuários acerca de comportamentos que favorecem as infestações.

O programa também contempla a utilização de defensivos químicos, mas estes são considerados como uma ferramenta única e adicional. São utilizados, apenas, onde e quando efetivamente indispensáveis. Os tipos de defensivos e sistemas de aplicação são dimensionados levando em conta as características de ocupação de cada área, buscando direcionar as intervenções aos focos ou principais rotas de invasão das pragas. Assim, o impacto ambiental é reduzido ao mínimo necessário para manter as populações sob controle. O Sistema PPV foi desenvolvido com a preocupação de mensurar os processos biológicos envolvidos nas flutuações populacionais em qualquer infestação por pragas. Ao longo dos anos trabalhamos no desenvolvimento e aprimoramento de modelos de infestação por pragas em diferentes ambientes. Estes modelos permitem prever algumas ocorrências e, assim, adotar medidas preventivas. Ao longo dos anos o conhecimento acerca das relações entre determinadas espécies de pragas e aquele ambiente específico aumenta. Como conseqüência, mais e mais ocorrências podem ser previstas e prevenidas. O principal resultado decorrente da utilização do Sistema PPV é que, ao longo dos anos as populações de pragas vão assumindo dimensões cada vez menores exigindo cada vez menos a utilização de defensivos químicos para o seu controle.

Quais seriam as ‘principais’ boas práticas a serem adotadas pelo hospital para o controle de pragas urbanas?

Conforme vimos anteriormente, as pragas precisam de acesso, água, alimento e abrigo para invadirem e se instalarem em um ambiente. Assim, quaisquer medidas que restrinjam a oferta destes elementos podem ser consideradas boas práticas. Neste sentido bons procedimentos de limpeza e higiene dos ambientes combinados com um bom programa de manutenção predial e um sistema eficiente de gestão das ocorrências de pragas e ações de correção ambiental são a nosso ver os fatores determinantes no sucesso de um programa de controle de pragas urbanas em hospitais.

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About Ana Augusta

Empreendedora, Empresária, Palestrante. Sócia Fundadora da Hotelaria Hospitalar Comunicação e Treinamentos. Formada em Hotelaria pelo SENAC, MBA Gestão em Saúde pela UNIFESP, pós graduada em Hotelaria Hospitalar pelo Instituto de Ensino e Pesquisa do Hospital Albert Einstein. Inglês fluente. Alemão Intermediário.